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Polarização leva a listas de boicote a empresários e demissões por questões políticas pós-eleição

A deputada estadual mais bem votada do Rio de Janeiro, Índia Armelau, incentivou demissão de funcionários por posicionamento político Foto: Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro; Reprodução/Instagram

Parlamentares ligados ao bolsonarismo têm incentivado boicotes a empresas e desligamento de empregados que declararam voto na esquerda (Por Jayanne Rodrigues)

Resumo
Empresas em Cianorte, PR, enfrentam boicotes por suposto apoio a Lula, apesar de empresários negarem envolvimento político. O Ministério Público do Trabalho recebeu 3 mil denúncias de assédio eleitoral em 2026. Parlamentares bolsonaristas incentivaram demissões de apoiadores de Lula. A empresária Gleidiane Pinto, acusada de assédio eleitoral, nega discriminação política. Especialistas alertam que demissões por motivos políticos são discriminatórias e podem resultar em ações judiciais.

Na noite desta terça-feira, 27, o empresário Magno Luiz, de 34 anos, se deparou com o nome do seu negócio em uma lista de boicote a empresas de Cianorte, ao norte do Paraná, cujos donos tivessem se posicionado a favor de Lula nas eleições presidenciais. A lista circulou em aplicativos de mensagens e em páginas da internet. Proprietário de um salão de beleza há quase 20 anos, ele diz não ter feito qualquer posicionamento durante as eleições. “Sempre respeitei a escolha política das pessoas. Nunca conversei sobre isso com as minhas clientes”, contou em entrevista ao Estadão.

Assim como em Cianorte, cidade em que Flávio Bolsonaro teve 33.336 votos, e Lula, 13.249, essas listas de boicotes - que incentivam clientes a não comprarem produtos ou serviços desses estabelecimentos - estão circulando em diversas localidades de todas as regiões do País, mesmo naquelas em que o candidato petista obteve mais votos. Além do boicote, também surgiram em todo o País campanhas intituladas “demita um petista” e “não contrate quem odeia empresários”.

Somente no Paraná, o Ministério Público do Trabalho (MPT) já recebeu 303 denúncias de assédio eleitoral. É o terceiro estado com maior número de denúncias neste ano, fica atrás apenas de Minas Gerais, com 316, e São Paulo, com 575. Ao todo, o órgão já recebeu 3 mil denúncias em 2026. Destas, 1,143 mil denúncias foram feitas desde o fim do segundo turno, o equivalente a 38,1% das denúncias recebidas neste ano.

O movimento ganhou repercussão após parlamentares ligados ao bolsonarismo incentivarem essas demissões e boicotes. A ex-deputada estadual de Dourados (MS), Bela Barros (PDT), publicou comentários em uma postagem no Instagram afirmando já ter desligado um funcionário dos setes restaurantes da família após os resultados do segundo turno e que ainda iria “demitir uns oito em nome de Jesus”. Ela também pediu para que as pessoas comprassem de empresários que “não são do PT”.

Algumas horas depois, Bela Barros publicou um pedido de desculpas em que diz estar “envergonhada” e “triste” com o resultado eleitoral. O vídeo de desculpas foi publicado após a ex-deputada ser notificada pelo Ministério Público do Trabalho. Ela justificou que os restaurantes citados nos comentários pertencem aos filhos, que desconheciam as publicações feitas. Sobre o desligamento dos funcionários, voltou atrás e negou.

No Rio de Janeiro, a deputada Índia Armelau (PL) também foi notificada pelo Ministério Público do Trabalho depois de publicar comentários em seu Instagram, que reúne mais de 1 milhão de seguidores, incentivando demissões de funcionários que tenham votado no Lula. “Empresário, olha a rede social do teu funcionário aí e confere se ele fez o ‘L’. Acho que não faz sentido nenhum manter na tua empresa quem odeia empresários”, escreveu em seus stories.

Em nota, Índia Armelau disse que “jamais teve qualquer preconceito” e “defende que as opções políticas dos trabalhadores sejam integralmente respeitadas.” No entanto, diz estar preocupada “com situações de sabotagem às próprias empresas, quebra da confiança e fidúcia entre empregador e empregado, contrariando missão, valores e objetivos da empresa.”

Em relação ao conteúdo publicado justificou que era um “equívoco interpretativo” e “não expressa qualquer orientação ou encorajamento sobre contratações ou demissões por parte da deputada por convicção política.” Após ter sido “mal interpretada, segundo a deputada, “deletou imediatamente os stories e postagens”.

A polarização política foi acentuada pelos temas trabalhistas, que foram pautas centrais nas campanhas de ambos os candidatos à presidência, a exemplo do fim da escala 6x1, afirma Maíra Blasi, especialista em futuro do trabalho. “Está todo mundo acalorado, tem um lado muito emocional nessas decisões”, diz. “E ainda tem fato de essa eleição ter sido pautada por assuntos trabalhistas.”

Funcionários relatam demissões após as eleições
Em Aquiraz, no litoral cearense, a empresária Gleidiane Pinto, que comanda uma empresa de cosméticos, está sendo acusada de assédio eleitoral por uma funcionária. Em imagens que circulam na internet, a empresária arremessa objetos no chão enquanto grita: “Fecha esse c*****, fecha essa p****, vamos demitir todo mundo”. Ao fundo do vídeo, funcionários limpam os estilhaços espalhados pelo chão.

Segundo Leticia Baima, de 30 anos, antes das demissões, a empresária teria realizado uma reunião com os funcionários em que pediu que não publicassem conteúdos contrários ao posicionamento político que ela seguia. Na ocasião, teria afirmado que os trabalhadores dependiam dos empresários. Leticia também relata que a proprietária chamava repetidamente os funcionários de “burros por votar no Lula”.

Na segunda-feira, 26, após o resultado das eleições, Gleidiane reuniu os funcionários e falou sobre a possibilidade de deixar o Brasil em razão do resultado eleitoral, segundo a funcionária. Leticia publicou no Instagram trechos do vídeo e áudios em que a proprietária diz que pretendia fechar a empresa em até quatro meses e deixar o País por não terem mais condições de manter a operação com o resultado das eleições. Nas gravações, Gleidiane também afirma que, durante o período de transição, o funcionamento da empresa cairia para 30%.

As demissões, de acordo com Leticia, começaram na terça-feira, 27. Ela afirma que a empresária chamou funcionários que declaradamente apoiavam o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e comunicou os desligamentos. Ao demitir uma colega de trabalho, Gleidiane teria dito: “Já que você não segue os mesmos princípios que os meus, eu estou lhe dando o aviso”, disse Leticia.

A funcionária afirma que cinco pessoas foram demitidas naquele dia. O número diverge da versão apresentada pelo advogado Helivangelo Barbosa, que representa a empresária, ao Estadão. Segundo ele, dois funcionários foram desligados após as eleições.

O advogado nega que a demissão e as agressões verbais feitas “se tratam de assédio político”. O advogado afirmou que a discussão teria sido motivada pela falha de um colaborador, e não por divergências políticas. Ele ainda disse que a cliente está enfrentando problemas financeiros e pessoais, que incluem o marido, que também atua na empresa.

“Ela está sobrecarregada e o marido não está ajudando”, disse Barbosa. De acordo com o advogado, Gleidiane emprega 100 funcionários em lojas distribuídas no Piauí, em Recife e na fábrica localizada em Aquiraz. Barbosa disse também que abrirá um boletim de ocorrência contra a funcionária que acusa a empresária de assédio eleitoral. “Essa moça estava há 15 dias na empresa... Em nenhum momento minha cliente fez demissão em massa ou teve assédio eleitoral dentro do ambiente de trabalho”, diz.

No Instagram, os vídeos e áudios publicados por Leticia sobre o caso repercutiram. Agora a profissional teme por sua segurança. “Nenhuma opinião política deveria ser motivo para humilhar, perseguir ou tirar de alguém a oportunidade de trabalhar. Por trás de cada funcionário existe uma família, existem contas para pagar, sonhos para realizar e pessoas que dependem daquele salário para viver”, escreveu Leticia em sua conta.

A reportagem entrou em contato com oito pessoas que relataram nas redes sociais terem sido demitidas por causa de seu posicionamento político. Algumas disseram preferir não conceder entrevista por temer retaliações nas cidades em que moram. Outras afirmaram que foram desligadas na manhã de segunda-feira, 26, sem justificativa. Os relatos levantam suspeitas sobre a possível motivação política das demissões, relatam os profissionais ouvidos em condição de anonimato.

Demissão por causa de posicionamento político
A demissão de um funcionário por causa da preferência política pode ser considerada discriminatória, mesmo quando a empresa paga todas as verbas rescisórias previstas em lei. Isso porque a liberdade de manifestação do pensamento e a proteção às convicções políticas também devem ser respeitadas nas relações de trabalho, afirma Guilherme Wünsch, consultor trabalhista do escritório Calcini Advogados e professor da Unisinos e da UFRGS.

“A possibilidade de dispensar sem justa causa não autoriza a empresa a adotar uma motivação discriminatória, e o pagamento das verbas rescisórias não torna legítima essa conduta”, diz. De acordo com o advogado, publicar apoio a um candidato, participar de um comício fora do expediente ou discordar das posições políticas do empregador não constitui, por si só, falta trabalhista.

A dispensa pode ser considerada discriminatória quando a posição política, real ou atribuída ao empregado, é utilizada como critério para excluí-lo do trabalho. Isso inclui demitir quem apoiou outro candidato, punir quem se recusa a participar de uma campanha ou selecionar funcionários para desligamento com base em suas publicações políticas.

Publicação feita nas redes sociais após o resultado das eleições Foto: Reprodução/TikTok

A Lei n.º 9.029/1995 proíbe práticas discriminatórias na admissão e na manutenção do vínculo empregatício, enquanto ameaças, constrangimentos e retaliações relacionados à escolha eleitoral também podem configurar assédio eleitoral, inclusive após as eleições.

Há ainda uma questão relacionada à proteção de dados. A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) classifica a opinião política como dado pessoal sensível. Por isso, segundo Wünsch, acompanhar redes sociais para formar listas ideológicas e utilizar essas informações em decisões de contratação, promoção ou demissão contraria a proteção legal. “O fato de uma informação estar publicada na internet não autoriza qualquer utilização pela empresa”, afirma.

Caso a Justiça reconheça que a demissão foi discriminatória, o trabalhador pode ter direito à reintegração ao emprego ou ao recebimento em dobro da remuneração referente ao período de afastamento, além de reparação por dano moral. Em determinadas situações, quando o retorno ao emprego se mostra inviável, a Justiça pode converter a reintegração em indenização.

Os boicotes rendem processos trabalhistas?
No caso das campanhas “demita um petista” e “não contrate quem odeia empresários”, além das declarações públicas de empresários que defendem não contratar pessoas que votaram em determinado candidato, é necessário diferenciar a manifestação individual do empresário da adoção efetiva de critérios discriminatórios de contratação, afirma Marcos Lemos, sócio da área trabalhista do Benício Advogados.

“Uma manifestação pessoal isolada, por mais polêmica que seja, está em princípio protegida pela liberdade de expressão do próprio empresário. Já a adoção efetiva de uma política de exclusão de candidatos em razão de suas convicções políticas caracteriza discriminação no acesso ao emprego”, afirma.

Segundo o advogado, dependendo das circunstâncias, o Ministério Público do Trabalho pode atuar para interromper práticas discriminatórias e buscar reparação por dano moral coletivo. Os candidatos prejudicados também podem, em tese, pleitear indenização individual.

A decisão de consumidores de deixar de comprar produtos ou serviços por razões ideológicas é, em princípio, uma manifestação legítima da liberdade de expressão. A situação muda quando a campanha inclui ameaças, perseguições, divulgação deliberada de informações falsas, ataques à honra, incitação à violência ou exposição indevida de dados pessoais.

“Quando a campanha ultrapassa esses limites, configura-se abuso de direito, nos termos do artigo 187 do Código Civil, e os responsáveis podem ser obrigados a indenizar os danos causados”, diz. O advogado pondera que a simples perda de clientes decorrente de um boicote político não gera, por si só, direito à indenização.

A mesma distinção vale para os trabalhadores que participam de boicotes ou criticam publicamente marcas apoiadas por seus empregadores. Segundo Lemos, essas manifestações integram as liberdades individuais e não justificam punição automaticamente. A análise pode ser diferente quando há conflito concreto de interesses, violação de confidencialidade, uso indevido da representação institucional ou conduta que comprometa diretamente as atividades da empresa.

“Fora desses casos, a participação em um boicote ou a crítica a determinada empresa integram as liberdades individuais do empregado e, isoladamente, não justificam punição”, afirma.

Apesar da onda de xingamentos, o empresário Magno Luiz conta que vem recebendo apoio de pessoas dos dois espectros ideológicos. “Tive uma única cliente que me mandou mensagens ofensivas e disse que meu salão ia cair. Mas de ontem para hoje agendei vários atendimentos”, diz. Ao Estadão, o empreendedor disse que pretende tomar medidas judiciais a respeito do caso. (Fonte: Estadão)

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